A Cannabis sativa guarda muito mais do que dois compostos. Embora o CBD e o THC sejam os protagonistas mais conhecidos — e mais estudados — da planta, a ciência já identificou mais de 140 fitocanabinoides, cada um com perfil farmacológico próprio e potencial terapêutico. É uma farmácia viva, rica e ancestral. O profundo conhecimento que a humanidade conquistou há mais de 10 mil anos está sendo resgatado pela ciência depois de meio século.
Neste artigo, apresentamos os principais canabinoides, o que a ciência sabe sobre cada um deles e por que essa diversidade importa para o tratamento.
THC — o incompreendido
O tetrahidrocanabinol foi o primeiro canabinoide isolado e estudado cientificamente, ainda na década de 1960. Ficou mundialmente conhecido — e demonizado — pelo seu efeito psicoativo. Mas há muito mais história por trás dessa molécula do que o senso comum conta.
O THC se liga diretamente aos receptores CB1, presentes principalmente no sistema nervoso central, o que explica tanto seus efeitos sobre a percepção e o humor quanto seu potencial terapêutico em condições neurológicas. Na prática clínica, suas propriedades analgésicas são bem documentadas — especialmente em dores neuropáticas crônicas refratárias a outros tratamentos. O controle de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia é outra indicação consolidada, assim como o estímulo do apetite em pacientes com câncer e HIV/AIDS.
Estudos mais recentes apontam ainda para um potencial neuroprotetor e ação anti-inflamatória — abrindo novas fronteiras para um canabinoide que, por décadas, foi mais perseguido do que estudado.
CBD — o embaixador da cannabis medicinal
Se o THC carrega o estigma, o canabidiol carrega a esperança. O CBD foi o grande responsável por abrir as portas do debate científico e regulatório sobre cannabis medicinal no mundo — e no Brasil não foi diferente.
Sem efeito psicoativo, o CBD interage de forma indireta com o sistema endocanabinoide, modulando receptores e enzimas sem se ligar fortemente aos receptores CB1. Esse perfil farmacológico único explica seu amplo espectro de ação: propriedades ansiolíticas, anticonvulsivantes, anti-inflamatórias e neuroprotetoras já estão bem estabelecidas na literatura.
Sua indicação mais robusta é o tratamento da epilepsia refratária — especialmente as Síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, para as quais o CBD é aprovado tanto pela Anvisa quanto pelo FDA. Mas os estudos avançam também para ansiedade, dor crônica, Parkinson, Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica.
CBG — o canabinoide-mãe
Pouco conhecido do grande público, o canabigerol é, na verdade, o precursor de todos os outros canabinoides. É a partir do CBGA — sua forma ácida — que a planta sintetiza o THC, o CBD e o CBC. Por isso, o CBG é chamado carinhosamente de “canabinoide-mãe”.
Presente em concentrações menores na maioria das genéticas, o CBG não possui efeito psicoativo e vem despertando crescente interesse científico. Suas propriedades neuroprotetoras são promissoras para doenças degenerativas como o Mal de Huntington. Estudos indicam ainda ação antibacteriana — inclusive contra cepas resistentes como o Staphylococcus aureus —, potencial anti-inflamatório em condições intestinais como a colite ulcerativa e possível aplicação no glaucoma pela capacidade de reduzir a pressão intraocular.
CBN — o canabinoide do sono
O canabinol tem uma origem peculiar: não é produzido diretamente pela planta em grandes quantidades, mas surge a partir da degradação do THC por oxidação — seja pelo envelhecimento da planta, pela exposição ao calor ou ao ar. É um canabinoide de história longa e reconhecimento tardio.
Seu principal destaque clínico é o efeito sedativo, sendo estudado como potencial aliado no tratamento de distúrbios do sono. Pesquisas sugerem que sua ação é semelhante à do diazepam, porém com menos efeitos colaterais e menor risco de dependência química — uma combinação que, se confirmada em estudos clínicos robustos, pode representar uma alternativa relevante para a medicina do sono.
O CBN também apresenta propriedades anti-inflamatórias e potencial para o crescimento do tecido ósseo — abrindo perspectivas para condições como osteopenia e osteoporose.
CBC — o canabinoide da neuroproteção
O canabicromeno é um dos fitocanabinoides menos conhecidos, mas com um perfil terapêutico de crescente interesse. Não possui efeito psicoativo e atua predominantemente sobre os receptores TRPV1 e TRPA1, modulando vias relacionadas à dor e à inflamação.
Um dos achados mais fascinantes sobre o CBC é sua capacidade de inibir a reabsorção da anandamida — o endocanabinoide natural do corpo humano frequentemente chamado de “molécula da felicidade” — prolongando seus efeitos no organismo. Evidências experimentais também sugerem que o CBC estimula a neurogênese, favorecendo o crescimento de novas células cerebrais — uma descoberta com implicações potenciais para condições como o Alzheimer.
O efeito entourage — quando o todo é maior que as partes
Uma das descobertas mais importantes da ciência canabinoide é o chamado efeito entourage: a ideia de que os canabinoides funcionam melhor em conjunto do que de forma isolada. Quando combinados entre si — e com os terpenos e flavonoides da planta —, os canabinoides potencializam mutuamente seus efeitos terapêuticos.
É por isso que os óleos de espectro completo, que preservam o perfil completo de canabinoides da planta, tendem a apresentar resultados clínicos superiores aos extratos isolados em muitos contextos de tratamento.
Ciência em evolução
A lista de canabinoides com potencial terapêutico cresce a cada ano. O THCV, por exemplo, vem sendo investigado para obesidade, diabetes e epilepsia. Outros compostos menos conhecidos aguardam mais estudos para revelar seu potencial.
O que a ciência já nos diz é claro: a Cannabis sativa é uma planta de uma complexidade farmacológica extraordinária — e ainda estamos no início da sua compreensão.
Fontes e leitura complementar
- Sobre THC
- Grotenhermen, F. & Müller-Vahl, K. — The Therapeutic Potential of Cannabis and Cannabinoids — Deutsches Ärzteblatt International, 2012
- Whiting, P.F. et al. — Cannabinoids for Medical Use: A Systematic Review and Meta-analysis — JAMA, 2015
- Sobre CBD
- Devinsky, O. et al. — Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome — New England Journal of Medicine, 2017
- Blessing, E.M. et al. — Cannabidiol as a Potential Treatment for Anxiety Disorders — Neurotherapeutics, 2015
- Sobre CBG
- Borrelli, F. et al. — Beneficial effect of the non-psychotropic plant cannabinoid cannabigerol on experimental inflammatory bowel disease — Biochemical Pharmacology, 2013
- Russo, E.B. — Taming THC: potential cannabis synergy and phytocannabinoid-terpenoid entourage effects — British Journal of Pharmacology, 2011
- Sobre CBN
- Appendino, G. et al. — Antibacterial Cannabinoids from Cannabis sativa — Journal of Natural Products, 2008
- Corroon, J. — Cannabinol and Sleep: Separating Fact from Fiction — Cannabis and Cannabinoid Research, 2021
- Sobre CBC
- El-Alfy, A.T. et al. — Antidepressant-like effect of delta-9-tetrahydrocannabinol and other cannabinoids isolated from Cannabis sativa — Pharmacology Biochemistry and Behavior, 2010
- Shinjyo, N. & Di Marzo, V. — The effect of cannabichromene on adult neural stem/progenitor cells — Neurochemistry International, 2013
- Sobre efeito entourage
- Russo, E.B. — The Case for the Entourage Effect and Conventional Breeding of Clinical Cannabis — Frontiers in Plant Science, 2019
- Fontes regulatórias e institucionais
- Anvisa — Resolução RDC 1.015/2026 — gov.br/anvisa
- OMS — Critical Review Report: Cannabidiol — WHO, 2018
- PubMed — Base de dados científica — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
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