Cannabis Medicinal e Transtorno do Espectro Autista — O que dizem as evidências

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neuropsiquiátrica de alta prevalência e etiologia multifatorial, caracterizada por déficits na comunicação e interação social, padrões comportamentais repetitivos e hipersensibilidade sensorial. Nas últimas três décadas, o número de diagnósticos triplicou globalmente — e os tratamentos convencionais disponíveis seguem limitados, focados principalmente no manejo sintomático por meio de antipsicóticos e ansiolíticos com perfis de efeitos adversos significativos.

É nesse contexto que o canabidiol (CBD) emerge como alternativa terapêutica de crescente interesse científico.


O sistema endocanabinoide no TEA

A base neurobiológica do potencial terapêutico dos canabinoides no autismo passa pela compreensão do papel do sistema endocanabinoide (SEC) no neurodesenvolvimento. Estudos indicam que alterações na sinalização endocanabinoide podem estar associadas a características centrais do TEA, como déficits na interação social e nos processos de modulação sensorial.

O CBD inibe a enzima FAAH, elevando os níveis de anandamida — substância endógena com propriedades neuromoduladoras e anti-inflamatórias — o que contribui para os efeitos ansiolíticos e neuroprotetores observados em modelos de autismo durante o neurodesenvolvimento.

Além dos receptores CB1 e CB2, o CBD interage com receptores TRPV1 e 5-HT1A, o que amplia seu espectro de ação e pode explicar parte dos efeitos comportamentais observados em estudos clínicos.


Evidências clínicas — o que os estudos mostram

Estudos clínicos conduzidos entre 2019 e 2024 demonstraram que extratos ricos em CBD, especialmente em formulações com pouca ou nenhuma presença de THC, podem trazer benefícios relevantes para sintomas associados ao autismo. Os efeitos terapêuticos mais frequentemente observados incluem melhorias na interação social, redução da ansiedade, diminuição da agitação psicomotora, melhora no sono e no apetite, maior concentração, menor irritabilidade e diminuição de comportamentos repetitivos.

Um estudo de prova de conceito publicado no Molecular Autism em 2021 — conduzido por Aran et al. — avaliou o tratamento canabinoide em crianças com TEA e demonstrou reduções significativas em comportamentos disruptivos e melhora na qualidade de vida dos pacientes e de seus cuidadores.

Outro estudo publicado na Nature acompanhou 188 pacientes com TEA tratados com cannabis medicinal entre 2015 e 2017, com relatos de melhora na interação social e redução de sintomas como insônia e TDAH. Os autores afirmaram que a cannabis pareceu ser uma opção bem tolerada, segura e eficaz para aliviar os sintomas associados ao TEA.


A contribuição brasileira — FMRP-USP e Fiocruz

O Brasil tem contribuído de forma relevante para esse campo. Um estudo liderado pelo pós-doutorando João Francisco Pedrazzi, sob supervisão do Prof. Dr. José Alexandre Crippa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, em colaboração com a Fiocruz, demonstrou que o CBD foi capaz de reverter déficits comportamentais associados ao TEA em modelo animal. Os resultados mostraram restauração da filtragem sensório-motora, redução de comportamentos repetitivos e aumento substancial da sociabilidade dos animais. A pesquisa recebeu financiamento da FAPESP e da CAPES.


Formulações e dosagens — considerações clínicas

As doses utilizadas nos estudos variam, mas geralmente ficam entre 300 a 600 mg de CBD por dia, com formulações na proporção 20:1 ou 75:1 de CBD:THC.

Estudos clínicos demonstram que a combinação balanceada entre THC e CBD, quando administrada em doses controladas, pode resultar em efeitos terapêuticos significativos, sugerindo uma ação sinérgica benéfica desses compostos.

O princípio “start low, go slow” é especialmente relevante em populações pediátricas, onde a titulação cuidadosa e o monitoramento rigoroso são indispensáveis.


Perfil de segurança

A segurança tem sido um ponto positivo: os efeitos colaterais relatados são, em sua maioria, leves e transitórios — como sonolência, perda de apetite e alterações gastrointestinais. Nenhum estudo clínico publicado até agora relatou eventos adversos graves com o uso controlado de CBD em pacientes com TEA.


Limitações e lacunas científicas

A honestidade científica exige reconhecer as limitações do corpo de evidências atual. Embora o CBD demonstre segurança e potencial terapêutico no TEA, sua incorporação clínica depende de maior robustez metodológica e normatização específica.

A maioria dos estudos disponíveis apresenta amostras pequenas, ausência de grupo controle adequado e curto período de seguimento. A heterogeneidade das formulações utilizadas dificulta a comparação entre estudos e a definição de protocolos padronizados.

O principal desafio a ser enfrentado para o uso da cannabis medicinal no tratamento do autismo é a realização de mais estudos do tipo duplo-cego randomizado com evidências sólidas de eficácia e segurança.


Considerações para a prática clínica

O uso de cannabis medicinal no TEA deve ser considerado como terapia complementar em casos refratários — quando medicações convencionais não trouxeram resposta satisfatória ou causaram efeitos adversos significativos. A decisão clínica deve ser individualizada, baseada em evidências disponíveis e acompanhada de monitoramento rigoroso.

Contraindicações relativas incluem histórico familiar de psicose, uso concomitante de medicamentos com interação canabinoide relevante e ausência de prescrição e acompanhamento médico especializado.

Referências

  • Aran A. et al. — Cannabinoid treatment for autism: A proof-of-concept randomized trial — Molecular Autism, 2021
  • Rice L.J. et al. — Efficacy of cannabinoids in neurodevelopmental and neuropsychiatric disorders among children and adolescents: a systematic review — European Child & Adolescent Psychiatry, 2024
  • Pretzsch C.M. et al. — The effect of cannabidiol (CBD) on low-frequency activity and functional connectivity in the brain of adults with and without ASD — Journal of Psychopharmacology, 2019
  • Pedrazzi J.F. et al. — Canabidiol em modelo animal de TEA — Pharmacology, Biochemistry and Behavior, 2025 — FMRP-USP / Fiocruz
  • Hamud C.D.D. et al. — Cannabis medicinal no Transtorno do Espectro Autista: evidências atuais e desafios — Revista Eletrônica Acervo Saúde, 2025
  • PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

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